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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

80 anos - Uma vida bossa nova

Foda essa matéria sobre o Zé Maconha. Daqui

João Gilberto ainda não retomou os ensaios - WILTON JUNIOR/AE
WILTON JUNIOR/AE


João Gilberto toma vitaminas e caminha só de meias pelo quarto. A voz, inconfundível, patrimônio incalculável da cultura brasileira, está fanha e um tanto arranhada. Por isso, ele ainda não retomou os ensaios. Como na descrição que abre Frank Sinatra Está Resfriado - antológico perfil do maior astro da canção americana escrito pelo jornalista Gay Talese para a revista Esquire em 1965 - o baiano de Juazeiro que criou a batida perfeita da bossa nova recebe a atenção de duas belas moças. No caso, a mulher, a cineasta Claudia Faissol, 40 anos mais jovem do que ele, que narrou o arrastar de meias, e a filha do casal, Luisa, de 7. As duas são as únicas pessoas com acesso franqueado ao apartamento de João. Comenta-se que ele teve uma namorada que nem sequer pôs os pés lá. Não é fácil adivinhar, portanto, pelos relatos de amigos que só dialogam com ele por telefone, em longas chamadas madrugada adentro, o que vai pela cabeça e pelo coração do artista. Sem falar nos que não se manifestam nem em off, como o jornalista Mario Sergio Conti: "Tudo que eu falar poderá ser facilmente identificado".

É de se supor, no entanto, que a disposição de João hoje não seja das melhores. A turnê de aniversário do gênio, "80 anos - Uma vida bossa nova", anunciada para o início de novembro em cinco capitais do País, teve de ser adiada por causa da sinusite, diagnosticada por seu médico, o geriatra carioca Jorge Jamili. Rumores de que o cancelamento se devera ao encalhe de parte dos salgados ingressos, com preços variando de R$ 500 a R$ 1.400, certamente não contribuíram para o estado de espírito daquele que Caetano Veloso considera "o maior artista da música brasileira de todos os tempos". Uma coluna social publicou que João ficou "tristíssimo" com o fato e a produção teve de enxugar itens como o jatinho particular que levaria o músico de uma cidade para outra. Só a segunda parte da informação foi desmentida.

O zum-zum sobre as razões do adiamento não arrefeceu nem com a divulgação, essa semana, de novas datas para os shows, em dezembro: dia 9 em Salvador, 18 em São Paulo e 21 no Rio. Embora os de Porto Alegre e Brasília ainda não estejam confirmados, a organização ressalta que todos os 2.252 ingressos para a apresentação no Theatro Municipal do Rio se esgotaram e 85% dos 3.075 lugares do Via Funchal, na capital paulista, já foram vendidos. A informação de que o empresário Eike Batista arrebatara um enorme lote a título de "apoio cultural", que circulou nas noites cariocas e virou piada no site The piauí Herald, foi desmentido pela assessoria do empresário ao Aliás.

Não sei sofrer, não sei chorar, eu sei me conformar, diria João Gilberto, se falasse com a reportagem. Personagem discreto, quase monástico em sua privacidade, ele raríssimas vezes concedeu uma entrevista, mas nem assim conseguiu evitar a falação do povo, fascinado por suas "excentricidades", reais ou imaginárias. E como quem conta um conto sobre o cantor sempre aumenta um ponto, não se sabe ao certo onde terminam os fatos e começa a lenda. A família revela, por exemplo, que muito o aborreceu a notícia, publicada no início do ano, de que estaria sendo despejado pela condessa Georgina Brandolini D'Adda de um imóvel na Rua General Urquiza, no Leblon, zona sul do Rio, onde ele nem morava - embora o locasse. Ou a altercação, divulgada em junho, com um vizinho que esmurrava a porta aos gritos de "fumar maconha é crime!", arrancando-lhe como resposta o único grito ouvido em anos pelos condôminos do prédio na Rua Carlos Góis onde ele realmente vive: "Você mora no Leblon, olha a baixaria!"

Ali ele vive entocado, dedilhando seu violão e pedindo comida em domicílio no modesto restaurante da esquina, o Degrau, na Av. Ataulfo de Paiva. O apartamento de três dormitórios e 130 m² é alugado e dá vista lateral para o mar. Embora as cortinas vivam fechadas, há quem jure tê-lo visto na área de serviço, de short, camisa social e relógio. Um entregador do supermercado mais próximo não hesitou em se declarar espantado com a montanha de louça suja acumulada na cozinha do músico. Por causa da idade, João Gilberto contratou um motorista e aparentemente se desfez do famigerado Monza verde escuro com que, no final dos anos 80, levou um assustado Nelson Motta para passear.

"Entrei no carro lembrando de algo que o Luiz Galvão, dos Novos Baianos, havia contado, que João dirigia que nem louco, cruzando todos os sinais vermelhos", conta o escritor e colunista do Estado. "Mas não foi nada disso, ele circulou tranquilamente, admirando o mar e ouvindo no toca-fitas conjuntos vocais dos anos 40." Motta, que considera Amoroso, gravado por João Gilberto nos EUA em 1977 e cantado em inglês, espanhol, italiano e português, o melhor disco que ouviu na vida, não perde uma apresentação do cantor, aconteça onde acontecer.

Ao lado do amigo, Nelson Motta protagonizou, em 1991, uma cena hilariante, que pode ser vista no YouTube, em que o repórter Amaury Jr. tenta insistentemente arrancar uma declaração de João, que se limita a dizer, com um sorriso maroto: "Eu posso pedir ao Nelsinho pra falar?" Não foi uma blague isolada, assegura Motta. "O humor é uma característica do João pouco percebida pelas pessoas. Ele é um imitador engraçadíssimo e tem tiradas cáusticas, como quando disse 'vaia de bêbado não vale'", diz, em referência ao incidente ocorrido em 1999 durante um show no Credicard Hall, em São Paulo.

Outra face inesperada do músico que traduziu, com delicadeza ímpar, a batida do samba para o violão e a fez dialogar com o ritmo e a musicalidade da palavra cantada, é a de fã de torneios de vale-tudo. João se entusiasma aos brados com a pancadaria de ídolos como Minotauro e Anderson Silva, confidenciam amigos. E é de se imaginar que tenha interrompido o repouso vocal na madrugada de ontem para acompanhar a primeira transmissão do UFC (Ultimate Fighting Championship) pela Rede Globo, com narração de Galvão Bueno.

Os contatos do músico com Nelson Motta tornaram-se mais esparsos nos últimos anos, assim como com outros amigos. Talvez pelo nascimento da filha Luisa, a quem João dedica o tempo que sobra das exigências que a música lhe impõe. Aconteceu também com o deputado federal Raul Henry, em segundo mandato pelo PMDB de Pernambuco, outro dos privilegiados que desfrutam da voz e, muy eventualmente, da presença do artista. Quem os apresentou foi o violonista alagoano Aldro Lajes, que acompanhava a cantora Miúcha, ex-mulher de João Gilberto. Na época, Henry era vice-prefeito e convidou o músico para se apresentar na reinauguração do Teatro Santa Isabel, após a reforma que lhe devolveu as linhas originais de 1850. Foram duas noites inesquecíveis, dia 13 e 14 de dezembro de 2000, e os dois ficaram amigos.

"Depois disso, sempre que eu passava no Rio, levava uma caixa de umbu, que é a fruta de que João mais gosta. Deixava na portaria do prédio. Nunca subi, nem pedi para subir", conta. Nos longos telefonemas pontuados por música - João desenvolveu a técnica de se inclinar, com o telefone no ombro, perto do bocal do violão, para falar e tocar ao mesmo tempo -, Henry conheceu um homem politizado e apaixonado por futebol. "A conversa dele é uma poesia, impressionante. Às vezes eu tomava uma dose de uísque antes para apreciar melhor a prosa." Quando, após as eleições de 2002, Lula anunciou que manteria a política econômica do antecessor, FHC, João elogiou: "Que beleza, Raulzinho, ele está acertando em tudo até agora".

Não tem preço. O deputado faz um desagravo pelo clima criado em torno das apresentações nos 80 anos do artista. Em um artigo publicado no site da revista Época, o crítico musical Luís Antônio Giron chamou de extorsivos os preços dos ingressos e disparou: "Talvez João Gilberto valha menos em termos monetários do que queira pensar". Henry acha falta de respeito. "João Gilberto é o elemento mais universal da cultura brasileira hoje. Seu valor é incalculável."

Claudia Faissol é ainda mais enfática na defesa do marido, que conheceu após contornar com muito jeito sua resistência a um documentário que ela ainda está produzindo sobre sua música. "Nós brasileiros não ganhamos o Prêmio Nobel nem o Oscar, mas ganhamos por duas vezes o prêmio maior da música com o João Gilberto. O Grammy norte-americano, que é completamente diverso do Grammy latino-americano, uma honraria dada pela National Academy of Arts só aos melhores do mundo. João concorreu com Louis Armstrong e Rolling Stones e ganhou", desabafa. Claudia conta que se dedicou pessoalmente na última semana a fazer contatos com governos e prefeituras por onde a turnê vai passar na intenção de viabilizar outras apresentações a preços populares ou a transmissão dos concertos de graça. Ainda sem sucesso. "O brasileiro comum merece conhecer o trabalho imortal do João."

Até o músico Lobão, crítico ferrenho da canonização de ídolos da MPB, recolheu suas garras: "Parece que o Brasil é 8 ou 80: ou é um culto ridículo ou esse discurso do encalhe. De repente, esse sintoma é com o público. O Brasil está ficando muito vascaíno, como se diz no Rio. Grotesco, mal-acabado". E recorda as duas vezes em que falou com o artista baiano no ano de 1986.

"Eram 5h da manhã e eu estava na minha casa no Jardim Botânico, cheiradão, quando toca o telefone. E o João do outro lado: 'Vem agora pro meu apartamento. Quero gravar Me Chama. Eu senti muito a emoção dessa letra'. Eu não tinha a menor condição de aparecer lá naquele estado, então inventei uma desculpa", ri Lobão. Meses depois, o pai da bossa nova quis que o roqueiro ouvisse, via Embratel, as oito mixagens diferentes que tinha feito da música e o ajudasse a escolher a melhor. "Apesar de tudo que já disse dele, tenho o maior carinho pelo João. Ele tem suas esquisitices, como eu, mas é uma criatura doce, meiga até."

Toda essa estridência deve continuar, pelo menos até as cortinas se abrirem e João Gilberto tocar as cordas de seu Di Giorgio 1950. Então, talvez, a melhor resposta venha de seus próprios lábios, sussurrada: É só isso o meu baião / E não tem mais nada não.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

80 anos de João Gilberto.

Minha homenagem ao maior interprete da bossa nova.

Um dos momentos altos da musica no Brasil. Tom, Vinícius, João Gilberto e Os Cariocas em 1962. Inimaginável uma coisa dessa. Como disse Chico Buarque. "Se eu tenho orgulho de ser brasileiro, esse orgulho vem da minha ligação com a musica..."

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpAwaXoaH3rTOzXjvbDrHe_U3sRuEHvCMyo8O10ljIT83EnHszEswMD9cU4a4pF8BruaKJuWjAYWGe9VzZO23MrToGLDciasHWBJGtLZxBMkKfrtxvylD5e5QPJ78e6sOIT7Gs2Mv_pYS4/s320/Vinicius,Tom,Joao_Giberto_Os_Cariocas.jpg

Cinco dos maiores clássicos da Bossa Nova foram estrelados no show do Ban Gourmet: "Só danço samba", de Tom e Vinícius; "Samba do avião", de Tom, "Samba da benção" e "O astronauta", de Baden e Vinícius - e o último deles, por ordem de entrada em cena, "Garota de Ipanema". Na noite de estréia, em agosto de 1962, ninguém sabia o que viria quando Tom dedilhou alguma coisa ao piano e João Gilberto cantarolou:
"Tom e se você fizesse agora uma canção/ Que possa nos dizer/ Contar o que é o amor?"
Ao que Tom respondia:
"Olha Joãozinho, eu não saberia/ Sem Vinícius pra fazer a poesia..."
O vate pegava o mote:
"Para essa canção se realizar/ Quem dera João para cantar..."
Ao que João Gilberto, inacreditavelmente modesto, completava:
"Ah, mas quem sou eu?/ Eu sou mais vocês./ Melhor se nós cantássemos os três."
E os três:
"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..."


Do livro: Chega de Saudades, Ruy Castro.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Bossa Nova

Um dos momentos altos da musica no Brasil. Tom, Vinícius, João Gilberto e Os Cariocas em 1962. Inimaginável uma coisa dessa. Como disse Chico de Almeida Buarque. "Se eu tenho orgulho de ser brasileiro, esse orgulho vem da minha ligação com a musica..."

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpAwaXoaH3rTOzXjvbDrHe_U3sRuEHvCMyo8O10ljIT83EnHszEswMD9cU4a4pF8BruaKJuWjAYWGe9VzZO23MrToGLDciasHWBJGtLZxBMkKfrtxvylD5e5QPJ78e6sOIT7Gs2Mv_pYS4/s320/Vinicius,Tom,Joao_Giberto_Os_Cariocas.jpg

Cinco dos maiores clássicos da Bossa Nova foram estrelados no show do Ban Gourmet: "Só danço samba", de Tom e Vinícius; "Samba do avião", de Tom, "Samba da benção" e "O astronauta", de Baden e Vinícius - e o último deles, por ordem de entrada em cena, "Garota de Ipanema". Na noite de estréia, em agosto de 1962, ninguém sabia o que viria quando Tom dedilhou alguma coisa ao piano e João Gilberto cantarolou:
"Tom e se você fizesse agora uma canção/ Que possa nos dizer/ Contar o que é o amor?"
Ao que Tom respondia:
"Olha Joãozinho, eu não saberia/ Sem Vinícius pra fazer a poesia..."
O vate pegava o mote:
"Para essa canção se realizar/ Quem dera João para cantar..."
Ao que João Gilberto, inacreditavelmente modesto, completava:
"Ah, mas quem sou eu?/ Eu sou mais vocês./ Melhor se nós cantássemos os três."
E os três:
"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça..."


Do livro: Chega de Saudades, Ruy Castro.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Só no bostinha, mesmo.

"Os Matarazzo já tinham ficado constrangidos poucos anos antes, em 1950, quando um de seus membros, Ermelindo, primo de André, não conseguia dominar sua paixão por futebol e pelo Botafogo, e oferecera consideráveis contribuições em dinheiro ao clube carioca para que este o deixasse treinar como goleiro entre os reservas. O Botafogo, evidentemente, topara mais que depressa e, com isto, Ermelindo Matarazzo tornara-se a piada favorita dos meios esportivos: era o único jogador do futebol brasileiro que praticava o profissionalismo ao contrário. Ou seja, pagava para jogar. E o que era pior: orgulhava-se de ser reserva de um homem chamado Oswaldo Baliza."

Trechos do livros Chega de Saudades - A história e as histórias da Bossa Nova de Ruy Castro

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A maconha em 1950 no Rio de Janeiro

Comprava-se maconha quase abertamente na Lapa em 1951. Um dos points era a calçada do bar Primor e do cinema Colonial, no largo da Lapa, de frente ao ponto dos bondes. Os fornecedores eram os garotos que vendiam cigarros nos tabuleiros. Nesse tabuleiros, entre os inocentes Lincoln, Caporal Douradinho, Liberty Ovais e outras marcas comerciais, podia-se escolher entre os cigarros que já vinham enroladinhos em três diâmetros e preços diferentes: "fino", "dolar" e, o mais grosso, "charo". Não há registro de cotações da época, mas diz-se que eram até baratos, considerando-se sua excepcional qualidade - sem dúvida, para conquistar freguesia. Na intimidade, a maconha era chamada de "mato", "erva" ou, só pelos iniciados, de "Rafa" - uma abreviatura da expressão "O Rafael tá ai?" para saber se havia fumo no pedaço.


Trecho do livro "Chega de saudades, a história e as histórias da bossa nova" de Ruy Castro