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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

CBF gasta 23 milhões de reais para calar Romário

Daqui


Sempre bato nesta tecla: podemos chamar Ricardo Teixeira de muitas coisas. Mas burro ele não é.

No apagar das luzes da semana passada, às vésperas do Natal, a CBF anunciou que doará 32 mil ingressos para deficientes físicos durante a Copa do Mundo 2014. Serâo 500 ingressos para portadores de necessidades especiais, com direito a acompanhante, para cada jogo do Mundial. Segundo apuração do Portal iG, a CBF vai desembolsar 23 milhões de reais para o projeto.

O deputado Romário teve duas grandes causas neste primeiro ano de mandato legislativo: fiscalizar a organização para a Copa 2014 e melhorar a vida de deficientes físicos - Romário tem uma filhinha portadora da Síndrome de Down, que lhe serve de inspiração.

Romário tem sido o principal opositor a Ricardo Teixeira, que preside a CBF e é, na prática, o manda-chuva do Comitê Organizador Local (COL), que organiza a Copa. Teixeira precisava desesperadamente de uma estratégia para amenizar as críticas de Romário, que surtem mais efeito que as críticas de qualquer jornalista esportivo.

Com isso em mente, apaziguar Romário foi a primeira grande missão de Ronaldo como presidente oficial do COL. Ele chamou o seu ex-companheiro de ataque na Seleção Brasileira para conversar e, na sequência, anunciou que a CBF financiará os ingressos para deficientes. Emocionado, Romário disse o seguinte:

"Conversando com o Ricardo (Teixeira) e Ronaldo, fiz um pedido sobre a possibilidade de termos alguma conquista para essa classe de pessoas com deficiência. E fiquei surpreso com a rapidez da resposta. O Ricardo me passou que, independentemente de qualquer coisa, a CBF vai doar 32 mil ingressos para pessoas com deficiência e seus acompanhantes. Essa é uma vitória dentro desse meu primeiro ano de mandato. A maior delas, porque será a única classe sem ter que pagar ingresso. Por isso, eu gostaria de aproveitar para agradecer ao Ronaldo e ao Ricardo".

Ricardo Teixeira deve estar sorrindo de alegria ao ver o tom amistoso como Romário se refere a ele. Agora é esperar pra ver como será o Romário de 2012, se o combativo deputado que bota a boca no trombone em tudo a que se refere a organização da Copa, ou se apenas um ex-jogador que trata com desvelo os assuntos que Ricardo Teixeira e Romário tiverem interesse.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

80 anos - Uma vida bossa nova

Foda essa matéria sobre o Zé Maconha. Daqui

João Gilberto ainda não retomou os ensaios - WILTON JUNIOR/AE
WILTON JUNIOR/AE


João Gilberto toma vitaminas e caminha só de meias pelo quarto. A voz, inconfundível, patrimônio incalculável da cultura brasileira, está fanha e um tanto arranhada. Por isso, ele ainda não retomou os ensaios. Como na descrição que abre Frank Sinatra Está Resfriado - antológico perfil do maior astro da canção americana escrito pelo jornalista Gay Talese para a revista Esquire em 1965 - o baiano de Juazeiro que criou a batida perfeita da bossa nova recebe a atenção de duas belas moças. No caso, a mulher, a cineasta Claudia Faissol, 40 anos mais jovem do que ele, que narrou o arrastar de meias, e a filha do casal, Luisa, de 7. As duas são as únicas pessoas com acesso franqueado ao apartamento de João. Comenta-se que ele teve uma namorada que nem sequer pôs os pés lá. Não é fácil adivinhar, portanto, pelos relatos de amigos que só dialogam com ele por telefone, em longas chamadas madrugada adentro, o que vai pela cabeça e pelo coração do artista. Sem falar nos que não se manifestam nem em off, como o jornalista Mario Sergio Conti: "Tudo que eu falar poderá ser facilmente identificado".

É de se supor, no entanto, que a disposição de João hoje não seja das melhores. A turnê de aniversário do gênio, "80 anos - Uma vida bossa nova", anunciada para o início de novembro em cinco capitais do País, teve de ser adiada por causa da sinusite, diagnosticada por seu médico, o geriatra carioca Jorge Jamili. Rumores de que o cancelamento se devera ao encalhe de parte dos salgados ingressos, com preços variando de R$ 500 a R$ 1.400, certamente não contribuíram para o estado de espírito daquele que Caetano Veloso considera "o maior artista da música brasileira de todos os tempos". Uma coluna social publicou que João ficou "tristíssimo" com o fato e a produção teve de enxugar itens como o jatinho particular que levaria o músico de uma cidade para outra. Só a segunda parte da informação foi desmentida.

O zum-zum sobre as razões do adiamento não arrefeceu nem com a divulgação, essa semana, de novas datas para os shows, em dezembro: dia 9 em Salvador, 18 em São Paulo e 21 no Rio. Embora os de Porto Alegre e Brasília ainda não estejam confirmados, a organização ressalta que todos os 2.252 ingressos para a apresentação no Theatro Municipal do Rio se esgotaram e 85% dos 3.075 lugares do Via Funchal, na capital paulista, já foram vendidos. A informação de que o empresário Eike Batista arrebatara um enorme lote a título de "apoio cultural", que circulou nas noites cariocas e virou piada no site The piauí Herald, foi desmentido pela assessoria do empresário ao Aliás.

Não sei sofrer, não sei chorar, eu sei me conformar, diria João Gilberto, se falasse com a reportagem. Personagem discreto, quase monástico em sua privacidade, ele raríssimas vezes concedeu uma entrevista, mas nem assim conseguiu evitar a falação do povo, fascinado por suas "excentricidades", reais ou imaginárias. E como quem conta um conto sobre o cantor sempre aumenta um ponto, não se sabe ao certo onde terminam os fatos e começa a lenda. A família revela, por exemplo, que muito o aborreceu a notícia, publicada no início do ano, de que estaria sendo despejado pela condessa Georgina Brandolini D'Adda de um imóvel na Rua General Urquiza, no Leblon, zona sul do Rio, onde ele nem morava - embora o locasse. Ou a altercação, divulgada em junho, com um vizinho que esmurrava a porta aos gritos de "fumar maconha é crime!", arrancando-lhe como resposta o único grito ouvido em anos pelos condôminos do prédio na Rua Carlos Góis onde ele realmente vive: "Você mora no Leblon, olha a baixaria!"

Ali ele vive entocado, dedilhando seu violão e pedindo comida em domicílio no modesto restaurante da esquina, o Degrau, na Av. Ataulfo de Paiva. O apartamento de três dormitórios e 130 m² é alugado e dá vista lateral para o mar. Embora as cortinas vivam fechadas, há quem jure tê-lo visto na área de serviço, de short, camisa social e relógio. Um entregador do supermercado mais próximo não hesitou em se declarar espantado com a montanha de louça suja acumulada na cozinha do músico. Por causa da idade, João Gilberto contratou um motorista e aparentemente se desfez do famigerado Monza verde escuro com que, no final dos anos 80, levou um assustado Nelson Motta para passear.

"Entrei no carro lembrando de algo que o Luiz Galvão, dos Novos Baianos, havia contado, que João dirigia que nem louco, cruzando todos os sinais vermelhos", conta o escritor e colunista do Estado. "Mas não foi nada disso, ele circulou tranquilamente, admirando o mar e ouvindo no toca-fitas conjuntos vocais dos anos 40." Motta, que considera Amoroso, gravado por João Gilberto nos EUA em 1977 e cantado em inglês, espanhol, italiano e português, o melhor disco que ouviu na vida, não perde uma apresentação do cantor, aconteça onde acontecer.

Ao lado do amigo, Nelson Motta protagonizou, em 1991, uma cena hilariante, que pode ser vista no YouTube, em que o repórter Amaury Jr. tenta insistentemente arrancar uma declaração de João, que se limita a dizer, com um sorriso maroto: "Eu posso pedir ao Nelsinho pra falar?" Não foi uma blague isolada, assegura Motta. "O humor é uma característica do João pouco percebida pelas pessoas. Ele é um imitador engraçadíssimo e tem tiradas cáusticas, como quando disse 'vaia de bêbado não vale'", diz, em referência ao incidente ocorrido em 1999 durante um show no Credicard Hall, em São Paulo.

Outra face inesperada do músico que traduziu, com delicadeza ímpar, a batida do samba para o violão e a fez dialogar com o ritmo e a musicalidade da palavra cantada, é a de fã de torneios de vale-tudo. João se entusiasma aos brados com a pancadaria de ídolos como Minotauro e Anderson Silva, confidenciam amigos. E é de se imaginar que tenha interrompido o repouso vocal na madrugada de ontem para acompanhar a primeira transmissão do UFC (Ultimate Fighting Championship) pela Rede Globo, com narração de Galvão Bueno.

Os contatos do músico com Nelson Motta tornaram-se mais esparsos nos últimos anos, assim como com outros amigos. Talvez pelo nascimento da filha Luisa, a quem João dedica o tempo que sobra das exigências que a música lhe impõe. Aconteceu também com o deputado federal Raul Henry, em segundo mandato pelo PMDB de Pernambuco, outro dos privilegiados que desfrutam da voz e, muy eventualmente, da presença do artista. Quem os apresentou foi o violonista alagoano Aldro Lajes, que acompanhava a cantora Miúcha, ex-mulher de João Gilberto. Na época, Henry era vice-prefeito e convidou o músico para se apresentar na reinauguração do Teatro Santa Isabel, após a reforma que lhe devolveu as linhas originais de 1850. Foram duas noites inesquecíveis, dia 13 e 14 de dezembro de 2000, e os dois ficaram amigos.

"Depois disso, sempre que eu passava no Rio, levava uma caixa de umbu, que é a fruta de que João mais gosta. Deixava na portaria do prédio. Nunca subi, nem pedi para subir", conta. Nos longos telefonemas pontuados por música - João desenvolveu a técnica de se inclinar, com o telefone no ombro, perto do bocal do violão, para falar e tocar ao mesmo tempo -, Henry conheceu um homem politizado e apaixonado por futebol. "A conversa dele é uma poesia, impressionante. Às vezes eu tomava uma dose de uísque antes para apreciar melhor a prosa." Quando, após as eleições de 2002, Lula anunciou que manteria a política econômica do antecessor, FHC, João elogiou: "Que beleza, Raulzinho, ele está acertando em tudo até agora".

Não tem preço. O deputado faz um desagravo pelo clima criado em torno das apresentações nos 80 anos do artista. Em um artigo publicado no site da revista Época, o crítico musical Luís Antônio Giron chamou de extorsivos os preços dos ingressos e disparou: "Talvez João Gilberto valha menos em termos monetários do que queira pensar". Henry acha falta de respeito. "João Gilberto é o elemento mais universal da cultura brasileira hoje. Seu valor é incalculável."

Claudia Faissol é ainda mais enfática na defesa do marido, que conheceu após contornar com muito jeito sua resistência a um documentário que ela ainda está produzindo sobre sua música. "Nós brasileiros não ganhamos o Prêmio Nobel nem o Oscar, mas ganhamos por duas vezes o prêmio maior da música com o João Gilberto. O Grammy norte-americano, que é completamente diverso do Grammy latino-americano, uma honraria dada pela National Academy of Arts só aos melhores do mundo. João concorreu com Louis Armstrong e Rolling Stones e ganhou", desabafa. Claudia conta que se dedicou pessoalmente na última semana a fazer contatos com governos e prefeituras por onde a turnê vai passar na intenção de viabilizar outras apresentações a preços populares ou a transmissão dos concertos de graça. Ainda sem sucesso. "O brasileiro comum merece conhecer o trabalho imortal do João."

Até o músico Lobão, crítico ferrenho da canonização de ídolos da MPB, recolheu suas garras: "Parece que o Brasil é 8 ou 80: ou é um culto ridículo ou esse discurso do encalhe. De repente, esse sintoma é com o público. O Brasil está ficando muito vascaíno, como se diz no Rio. Grotesco, mal-acabado". E recorda as duas vezes em que falou com o artista baiano no ano de 1986.

"Eram 5h da manhã e eu estava na minha casa no Jardim Botânico, cheiradão, quando toca o telefone. E o João do outro lado: 'Vem agora pro meu apartamento. Quero gravar Me Chama. Eu senti muito a emoção dessa letra'. Eu não tinha a menor condição de aparecer lá naquele estado, então inventei uma desculpa", ri Lobão. Meses depois, o pai da bossa nova quis que o roqueiro ouvisse, via Embratel, as oito mixagens diferentes que tinha feito da música e o ajudasse a escolher a melhor. "Apesar de tudo que já disse dele, tenho o maior carinho pelo João. Ele tem suas esquisitices, como eu, mas é uma criatura doce, meiga até."

Toda essa estridência deve continuar, pelo menos até as cortinas se abrirem e João Gilberto tocar as cordas de seu Di Giorgio 1950. Então, talvez, a melhor resposta venha de seus próprios lábios, sussurrada: É só isso o meu baião / E não tem mais nada não.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Qual a lógica de produção de IPADs no Brasil?

Do blog Mansueto Almeida


Tinha prometido que não iria entrar neste debate. Mas confesso que já fiz de tudo para entender a fixação das autoridades governamentais para trazer a produção de IPADs para o Brasil e até agora não entendi e, sinceramente, gostaria de entender. Isso seria possível se alguém do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Ministério da Indústria e Comércio (MDIC) e/ou do BNDES se dispusesse a colocar no papel qual a estratégia de atrair a Foxconn para o Brasil e o que o país ganha com isso que não seja a simples montagem de produtos eletrônicos.

A ideia é interessante: o governo dá incentivos e traz para o Brasil a montagem de um produto que, supostamente, envolve elevado conteúdo tecnológico, elevado valor adicionado e cuja produção poderia até servir de plataforma de exportação para outros países da América Latina.

É impossível não fazer um paralelo disso com os objetivos da Lei de Informática: (i) aumento da densidade da cadeia produtiva e da densidade tecnológica do setor de TICs no Brasil, (ii) aumento das parcerias entre universidades e institutos de pesquisa; (iii) aumento da competitividade das empresas brasileiras e maior inserção no mercado internacional, etc. O que de fato se conseguiu com a Lei de Informática?

Segundo avaliação oficial desta lei concluída recentemente e infelizmente não divulgada (mas apresentação em power point está disponível na internet), os autores do estudo contratado pelo MCT ao CGEE mostraram que: a Lei de Informática proporcionou aumento da produção local e do número de empregos gerados; proporcionou aumento da capacidade de inovação com densidade científica e tecnológica relativamente baixa; não teve impacto substantivo na inserção global, não estimulou a entrada em serviços e em segmentos de hardware de maior valor agregado, e a Lei focou no incentivo a produção com efeitos limitados na criação de valor.

Em resumo, a avaliação recente da Lei de Informática mostra que tivemos sucesso em atrair a montagem de produtos, mas isso aumentou ou déficit comercial já que a especialização em montagem envolve importação de componentes como é o caso dos celulares, que são montados aqui com peças importadas. O total de importação sobre o faturamento dos produtos incentivados pela Lei de Informática, por exemplo, passou de 20%, em 2002 e 2003, para cerca de 60%, em 2009.

Ao que parece, a Lei de Informática teve sim alguns efeitos positivos, mas o que se destacou foi muito mais a produção com uso crescente de insumos importados do que o aumento da inovação, agregação de valor e inserção global. Sinceramente, não vejo nada muito diferente na ênfase excessiva que tem sido dada na montagem de IPADs no Brasil pela Foxconn.

Alguns esperam que a Foxconn, ao produzir IPADs no Brasil, empregue mão-de-obra qualificada (engenheiros) e traga fornecedores de insumos, o que levaria a transferência de tecnologia para empresas domésticas que poderiam entrar na lista de fornecedores da Foxconn. Isso faz sentido? Infelizmente, essa expectativa pelo que sei não tem respaldo nem com o modus operandi da Foxconn e nem tão pouco com a organização da cadeia global de um produto como o IPAD.

Em primeiro lugar, a Foxconn opera com fábricas de grande escala, algumas com mais de 400.000 trabalhadores que são verdadeiras fábricas em forma de cidades. Embora a Foxconn seja uma empresa de Taiwan, fez elevados investimentos para montar os IPADs, IPhones e Ipods na China porque tanto a carga tributária (mesmo de 20% do PIB) quanto o custo da mão-de-obra (em dólar) na China são baixos. O Brasil não passa neste teste e, assim, a única forma de sermos competitivos no âmbito global na montagem desses produtos seria com MUITOS incentivos fiscais e financeiros de todos os tipo que se possa imaginar e, por que não, com uma montanha de recursos do BNDES para facilitar a atração da Foxconn.

Segundo, já foi fartamente documentado por quem estudou o assunto que “agregação de valor” não tem absolutamente nada a ver com o “local da produção” e o melhor exemplo disto é justamente o modelo de negócios da Apple e a produção de IPOD (clique aqui), IPHONE e IPAD. Kenneth L. Kraemer, Greg Linden, e Jason Dedrick (clique aqui) estudaram a formação de valor na produção desses produtos e mostraram de forma inequívoca que o valor adicionado na China que produz esses aparelhos é pequeno e que os EUA, que não produzem um único IPAD mas controlam o design, o software e a marca, é quem mais ganha em cada IPAD produzido. O gráfico do texto dos autores acima não deixa dúvidas.

Divisão de Valor da Produção do IPAD – 2010

Fonte: Kenneth L. Kraemer, Greg Linden, e Jason Dedrick (2011)

Do valor total de US$ 499 de um IPAD de 16 GB WI-FI, em 2010, os EUA ficavam com 32% do valor, US$ 162, sendo US$ 150 (30%) da Apple e US$ 12 (2%) de firmas americanas fornecedoras da Apple. O equivalente a US$ 154 (31%) do valor do IPAD era custo dos insumos (produtos) utilizados na sua fabricação. O ganho da China na fabricação de cada IPAD era US$ 8 (1,6%), o valor da mão-de-obra empregada na fabricação dos IPADs e parte dos US$ 27 (5%) do lucro dos fabricantes de componentes cuja nacionalidade não foi identificada.

Quem de fato agrega valor ao IPAD é a Apple. Do valor final do IPAD de US$ 499, o preço de atacado para a Apple é de US$ 424. Desse total, se retiramos o valor dos insumos materiais utilizados no processo de produção (US$ 154) tem-se um valor adicionado de US$ 270 do qual US$ 150 (56% do valor adicionado) termina em Cupertino no Vale do Silício na sede da Apple.

É claro que os cálculos acima do texto do Kraemer et. Al (2011) não tiram em nada o mérito do fundador da Foxconn, Terry Gou, e da sua espetacular história com a Foxconn. Terry Gou construiu um império com mais de um milhão de trabalhadores e se tornou o homem mais rico de Taiwan a partir de um empréstimo de US$ 7.500 que conseguiu com a sua mãe aos 23 anos de idade. A Foxconn consegui ao longo de sua história despontar não apenas como um grande fornecedor da Apple, mas também de empresas como IBM, HP, DELL e Nokia. É sem dúvida um excelente caso de sucesso para os cursos de administração de empresas como é também a história do Wal-Mart e seu modelo de negócios que revolucionou o varejo e a produção de vários produtos industriais e agrícolas.

Do ponto de vista de política industrial, no entanto, não é tão claro o ganho para o Brasil na produção, ou melhor, na montagem de IPADs graças a incentivos fiscais e financeiros, junto com recursos do BNDES que serão utilizados para viabilizar a ampliação das operações da Foxconn aqui. O que questiono não é o ganho privado para a empresa, mas o benefício social que justificaria a aplicação de recursos dos contribuintes em uma empresa privada.

O melhor seria, talvez, turbinar o funcionamento de fundos de venture capital, uma indústria ainda pequena no Brasil, para fomentar um pouco de Steve Jobs que existe em muitos jovens que, devido a todas espécies de dificuldades para se iniciar um novo empreendimento no Brasil, terminam fazendo concurso público ou indo trabalhar em instituições financeiras.

É claro que do ponto de vista estritamente político, trazer uma empresa como a Foxconn para o Brasil é ganho líquido e certo para os políticos envolvidos no processo: o benefício da entrada de uma grande empresa é sempre acompanhada do aumento de contratações de mão-de-obra, investimentos fixo, etc. e, assim, o benefício é imediato. Os custos para sociedade decorrente do incentivos fiscais e financeiros não são divulgados e só ficam claros ao longo do tempo. É por isso que políticos continuam a fazer uso da guerra fiscal como instrumento de promoção do desenvolvimento local, regional e nacional, independentemente do país e da filiação partidária.

Seria bom para o debate que o governo divulgasse um estudo completo dos custos e benefícios de incentivar com recursos públicos a expansão da Foxconn no Brasil, ao invés de simplesmente falar que “vamos produzir o IPADs”. Se for para produzir o IPAD como a China faz e ficar com apenas US$ 8 do valor adicionado, confesso que não acho isso uma boa estratégia. E há motivos de sobra para se preocupar quando se olha para os resultados da Lei de Informática, que mostra que tivemos “sucesso” para internalizar parte da produção de equipamentos de telecomunicação, mas falhamos na criação de empresas globalmente competitivas.

Fica aqui o desafio para que nós pobres mortais tenhamos acesso a algum estudo de custo e benefício da utilização de recursos públicos para a produção de IPADs no Brasil. Apenas aqueles que estão envolvidos diretamente nas conversas com a Foxconn teriam condições de fazer esse estudo, ou seja, MCT, MDIC e/ou BNDES.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Repassa isso aqui, porra!

O maluco quebrou o braço da mina.
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Só faltou o vídeo pra fechar com chave de ouro, né?





Filho da puta, né? E saiu da boate sem ninguém fazer nada. Brasileirismo de merda esse! Coloca esse malandro na cadeia com aquele "compartilhar" do facebook que você sempre usa quando acha alguma coisa revoltante na internet.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Anvisa adverte: Revista Veja faz mal à saúde

Daqui

A revista Veja não tem cura. Na edição da semana retrasada, ela estampou na capa o título “O poderoso chefão” e publicou uma “reporcagem” cheia de adjetivos contra o ex-ministro José Dirceu. O seu repórter tentou invadir o apartamento do dirigente do PT e imagens ilegais foram usadas na matéria. A ação criminosa está sendo investigada pela polícia e a Veja está acuada.

Nesta semana, na edição número 2233, a revista preferiu uma capa mais light, talvez tentando esfriar a reação à sua ação mafiosa contra Dirceu. “Parece milagre!” foi a manchete da longa reportagem sobre um novo remédio “que faz emagrecer entre sete a 12 quilos em apenas cinco meses”. Novamente, porém, a revista parece ter cometido outro crime.

Hipoglicemia, náusea e diarréia
Em comunicado oficial, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) imediatamente alertou que o remédio propagandeado pela Veja não deve ser usado como emagrecedor. “A única indicação aprovada atualmente para o medicamento é como agente antidiabético… Não foram apresentados à Anvisa estudos que comprovem qualquer grau de eficácia ou segurança do uso do produto Victoza para redução de peso e tratamento da obesidade”.

Ainda segundo o comunicado, o uso do medicamento para qualquer outra finalidade apresenta “elevado risco para a saúde da população”. O Victoza foi aprovado para comercialização em março de 2010 para uso específico no tratamento de diabetes. A Anvisa informa que foram relatados eventos adversos associados ao medicamento nos estudos clínicos, como dores de cabeça, hipoglicemia, náusea e diarréia. Ela destaca ainda os riscos de pancreatite, desidratação e alteração da função renal e da tireóide.

Propaganda descarada

Como relata Ligia Martins de Almeida, em artigo no Observatório da Imprensa, a revista tem o péssimo costume de propagandear remédios. “Não é a primeira vez que Veja dedica seu precioso espaço para falar de dietas milagrosas… Mas talvez seja a primeira vez que ela usa sua capa para divulgar um produto de forma tão descarada”. Os resultados desta jogada comercial são imediatos.

“O sucesso da matéria pode ser comprovado no site DoceVida, especializado na venda de produtos para diabéticos, que já no domingo trazia a reprodução da capa de Veja com a matéria sobre o remédio. O medicamento, aliás, que só pode ser vendido com receita médica e custa entre 343 e 350 reais nos sites de farmácias especializadas em vendas online… Com a matéria de Veja, certamente a procura – na internet e nos consultórios de endocrinologistas – vai aumentar muito”.

Quem tem culpa no cartório?
“Os pauteiros e editores da revista – felizes com a repercussão da matéria (porque as matérias desse tipo sempre dão excelentes resultados) – não terão qualquer sentimento de culpa se eventualmente se descobrir que os efeitos do tal medicamento podem ser péssimos para quem não tem problemas com glicemia. Até lá, terão mudado os pauteiros e os editores e os próximos poderão discutir o assunto sem qualquer culpa no cartório”.

“O que Veja deixou claro, com essa matéria, é que a responsabilidade da imprensa com os seus leitores nem sempre vem em primeiro lugar. A vontade de causar impacto (ou talvez de atender os interesses de seus anunciantes) às vezes fala mais alto”, conclui Ligia Martins de Almeida, que até pegou leve com a inescrupulosa e ambiciosa famiglia Civita, dona da revista.

O crime não será punido?
Como ensina o professor Dênis de Moraes, no livro “Por uma outra comunicação”, a mídia privada e monopolizada tem interesses políticos e econômicos. Na “reporcagem” contra Dirceu, ela visou desgastar e enquadrar o governo Dilma. Já na matéria sobre o remédio milagroso, os interesses comerciais e publicitários falaram mais alto. Nos dois casos, a revista Veja cometeu crimes.

Será que o laboratório que fabrica o Victoza pagou pela chamativa propaganda na capa da Veja? Ele banca anúncios publicitários na revista? Quais seriam os valores? Existe “caixa-2” no mercado publicitário? Isto não configuraria uma forma de corrupção? Se a saúde da população é colocada em “risco elevado”, não caberia aos poderes públicos tomarem providência contra a revista?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

4:20

terça-feira, 14 de junho de 2011

Já estão ensinando na universidade...

Campus da UFPE tem aula sobre cultivo de maconha

Letícia Lins, O Globo

O campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foi utilizado [ontem] à tarde para uma aula, no mínimo, inusitada: como se cultivar um pé de maconha.

A chamada "Oficina de Cultivo de Cannabis" teve 60 "alunos" e foi ministrada pelo antropólogo Sérgio Vidal, autor do livro "Canabbis Medicinal - Introdução ao Cultivo Indoor", lançado à noite em Recife. Durante o evento na UFPE, quinze volumes foram comercializados.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bens declarados à Justiça Eleitoral - Aécio Neves

O cara tem só uma cobertura na Epitácio Pessoal que custa R$109.000,00. E nego falando do "pobre" do Palocci. tsc tsc tsc

APARTAMENTO = UM APARTAMENTO NA AVENIDA EPITACIO PESSOA N° 100/C01, MUNICIPIO DO RIO DE JANEIRO, ADQUIRIDO PELO VALOR DE R$ 109.500,00
R$ 109.500,00

O gráfico representa os bens declarados por todos os integrantes
da Senado Federal/BR, destacada a posição ocupada por Aécio Neves
.

Soma dos bens declarados em 2010R$ 617.938,42
Patrimônio

Montante

APARTAMENTO => UM APARTAMENTO NA RUA SAMUEL PEREIRA N° 237/1101, MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE, ADQUIRIDO PELO VALOR DE R$ 180.000,00 COM ACRESCIMOS RELATIVOS A REFORMAS REALIZADAS NO VALOR DE R$ 42.000,00

R$ 222.000,00

APARTAMENTO => UM APARTAMENTO NA AVENIDA EPITACIO PESSOA N° 100/C01, MUNICIPIO DO RIO DE JANEIRO, ADQUIRIDO PELO VALOR DE R$ 109.500,00

R$ 109.500,00

QUOTAS OU QUINHÕES DE CAPITAL => QUOTAS DE CAPITAL JUNTO A IM PARTICIPAÇÕES E ADM. LTDA - CNPJ 28.264.463/0001-80 NO VALOR DE 95.179,12

R$ 95.179,10

TERRENO => 50% DE UM IMOVEL RURAL SITUADO NO MUNICIPIO DE CLAUDIO NO VALOR DE R$ 87.000,00

R$ 87.000,00

APLICAÇÃO DE RENDA FIXA (CDB, RDB E OUTROS) => APLICAÇÃO FINANCEIRA NO BANCO DO BRASIL DE R$ 40.142,20

R$ 40.142,20

APLICAÇÃO DE RENDA FIXA (CDB, RDB E OUTROS) => APLICAÇÃO FINANCEIRA NO BANCO ITAU DE R$ 14.393,28

R$ 14.393,30

OUTRAS APLICAÇÕES E INVESTIMENTOS => OBJETO DE ARTE ADQUIRIDO EM LEILÃO BENEFICIENTE PELO VALOR DE R$ 13.650,00

R$ 13.650,00

QUOTAS OU QUINHÕES DE CAPITAL => 9.819 QUOTAS DE CAPITAL JUNTO A NC PARTICIPAÇÕES A ADM. LTDA - CNPJ 23.205.958/0001-14 NO VALOR DE R$ 9.819,00

R$ 9.819,00

TERRENO => DOIS LOTES DE N° 10 E N° 10A COM 802 METROS QUADRADOS DO LOTEAMENTO OURO VELHO MANSÕES, MUNICIPIO DE NOVA LIMA, ADQUIRIDO PELO VALOR DE R$ 9.715,62

R$ 9.715,62

OUTRAS APLICAÇÕES E INVESTIMENTOS => EMPRÉSTIMO A NC PARTICIPAÇÕES LTDA - CNPJ 23.205.958/0001-14 NO VALOR DE R$ 8.544,12

R$ 8.544,12

TERRENO => UM LOTE N° 02, QUADRA 08 COM 1.398 METROS QUADRADOS, BAIRRO CABECEIRAS, MUNICIPIO DE NOVA LIMA, ADQUIRIDO PELO VALOR DE R$ 6.939,73

R$ 6.939,73

DEPÓSITO BANCÁRIO EM CONTA CORRENTE NO PAÍS => SALDO EM CONTA NO UNIBANCO DE R$ 496,93

R$ 496,93

DEPÓSITO BANCÁRIO EM CONTA CORRENTE NO PAÍS => SALDO EM CONTA CORRENTE NO BANCO DO BRASIL DE R$ 331,07

R$ 331,07

AÇÕES (INCLUSIVE AS PROVENIENTES DE LINHA TELEFÔNICA) => AÇÕES JUNTO A TELEBRAS S/A NO VALOR DE R$ 217,26

R$ 217,26

DEPÓSITO BANCÁRIO EM CONTA CORRENTE NO PAÍS => SALDO NO BANCO ITAU DE R$ 10,00

R$ 10,00

AÇÕES (INCLUSIVE AS PROVENIENTES DE LINHA TELEFÔNICA) => AÇÕES JUNTO A EMPRESA DIÁRIOS ASSOCIADOS S/A NO VALOR DE R$ 0,09 RECEBIDAS DO INVENTARIO DE TANCREDO DE ALMEIDA NEVES

R$ 0,09

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Pois é, vazou...

Jobim e governadores baixam o pau no Judiciário

Do ministro da Defesa, Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, durante reunião, esta tarde, no Palácio do Planalto, sobre a violência na Amazônia que custou a vida de cinco líderes sindicais e lavradores da semana passada para cá:

- O Poder Judiciário no Brasil é péssimo!

A presidente Dilma Rousseff não comentou o que Jobim disse. Mas a fala dele foi a senha para que os governadores Simão Jatene (PSDB-PA), Omar Aziz (PMDB-AM) e Confúcio Moura (PMDB-RO) descessem o cacete na Justiça.

As críticas de Jobim e dos governadores foram ouvidas em silêncio também por quatro outros ministros: José Eduardo Cardoso (Justiça), Maria do Rosário (Secretaria Nacional de Direitos Humanos), Afonso Florence ( Desenvolvimento Agrário) e Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência).

Antes de Dilma entrar na sala da reunião, ao lado do seu gabinete, um assessor desligou o ar-condicionado. "A presidenta sempre se queixa do frio que faz no palácio", alegou.

Dilma queixou-se do programa Terra Legal, criado ainda no governo Lula por inspiração do então ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger.

- O Terra Legal é um atraso só - disse Dilma.

Ela participou da reunião entre 16h15 e 18h. Foi embora porque tinha outro compromisso. A reunião terminou uma hora depois com o apelo feito por Gilberto Carvalho:

- Queria fazer um apelo a vocês para que não vazem informações sobre as críticas feitas ao Judiciário. Isso evitará que se abra uma nova frente de batalha contra o governo.

Pois é. Vazou.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Remando contra a corrente. Só pra exercitar!

Senado aprova MP que incentiva mais usinas nucleares

Adriana Vasconcelos e Mônica Tavares, O Globo

O governo conseguiu aprovar na noite de [ontem] no Senado a Medida Provisória (MP) 517 que estabelece um regime especial de tributação para incentivar a construção de usinas nucleares e a Reserva Geral de Reversão (RGR), fundo que permite uma arrecadação de R$ 2,5 bilhões por ano do setor elétrico, que vão diretor para o Tesouro e a Eletrobras.

A vitória governista só foi garantida algumas horas antes do fim do prazo de validade da MP devido ao processo de obstrução mantido pela oposição que estendeu o debate da matéria por mais de seis horas.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Corre lá e mostra pra sua mãe...


Há 40 anos os EUA levaram o mundo a declarar guerra às drogas, numa cruzada por um mundo livre de drogas. Mas os danos causados por elas nas pessoas e na sociedade só cresceram. Abusos, informações equivocadas, epidemias, violência e fortalecimento de redes criminosas são os resultados da guerra perdida numa escala global. Num mosaico costurado por Fernando Henrique Cardoso, "Quebrando o Tabu" escuta vozes das realidades mais diversas do mundo em busca de soluções, princípios e conclusões. Bill Clinton, Jimmy Carter e ex-chefes de Estado, como da Colômbia, do México e da Suíça, revelam porque mudaram de opinião sobre um assunto que precisa ser discutido e esclarecido. Do aprendizado de pessoas comuns, que tiveram suas vidas marcadas pela Guerra às Drogas, até experiências de Drauzio Varella, Paulo Coelho e Gael Garcia Bernal, "Quebrando o Tabu" é um convite a discutir o problema com todas as famílias.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A moda do reaça

Daqui

Como comentou uma leitora, Natália, no post anterior:

Cara, acho tão engraçada essa mania das pessoas de falarem com orgulho que são “politicamente incorretas” quando dizem absurdos… o sujeito vem, fala um monte de merda e diz que faz isso porque é inteligente (é um livre pensador, não segue o pensamento burro e dirigido das massas, etc) e porque não liga de ser “politicamente incorreto” porque afinal esse é o certo, a sociedade de hoje que está deturpada.

Coincidência. Eu pensava na mesma coisa.

O governador e o secretário municipal de segurança reconheceram que tanto a PM quanto a GCM exageraram na repressão à MARCHA DA MACONHA, que virou MARCHA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Alckmin chegou a dizer que não compactua com a ação violenta da PM.

Mas muitos leitores e alguns blogueiros continuam acreditando que a polícia estava certa: enfiar o cacete nos manifestantes.

Como os PMs que tiraram a identificação, para baterem numa boa.

A onda agora é ser bem REAÇA.

Se é humorista, e uma piada ultrapassa o limite do bom gosto, diz ser adepto do politicamente incorreto.

Que babaca agora é fazer censura contra intolerância.

Podemos zoar com judeu, gay, falar palavrão. É isso, que se foda, viva a liberdade!

Se alguém defende a Marcha da Maconha, faz apologia, é vagabundo.

Se defende a descriminalização do aborto, é contra a vida.

Se aplaude a iniciativa da aprovação da união homossexual, quer enviadar o Brasil todo- país que se orgulha de ser bem macho, bem família!

Se defende a punição de torturadores, é porque pactua com terroristas que só queriam implodir o estado de direito e instituir a ditadura do proletariado.

Deu, né?

Esta DiogoMainardização da imprensa e da pequena burguesia brasileira tem um nome na minha terra: má educação.

Esta recusa ao pensamento humanista que ressurgiu após a leva de ditaduras que caiu como um dominó a partir dos anos 80 tem outro nome: neofascismo.

É legal ser de direita?

Tá bacana desprezar os movimentos sociais, aplaudir a repressão contra eles?

Eu não acho.

Apesar de considerar o termo “politicamente correto”, do começo dos anos 90, a coisa mais fora de moda que existe, afirmo diante do que vejo e leio: eu, aleijado com tendências esquerdizantes, não era, mas agora sou TOTALMENTE politicamente correto.

+++

Foi uma semana marcada pelo protesto da gente diferenciada e gafes nas redes sociais, que têm 600 milhões de vigilantes no Facebook e 120 milhões no Twitter. Postaram:

Rafinha Bastos, no dia das mães: “Ae órfãos! Dia triste hoje, hein?”

Danilo Gentili, sobre os “velhos” de Higienópolis que temem uma estação de metrô: “A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz.”

Amanda Régis, torcedora do Flamengo, time eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que têm moral, cambada de feios. Não é à toa que não gosto desse tipo de raça.”

Ed Motta, ao chegar em Curitiba: “O Sul do Brasil como é bom, tem dignidade isso aqui. Sim porque ooo povo feio o brasileiro rs. Em avião dá vontade chorar rs. Mas chega no Sul ou SP gente bonita compondo oambiance rs.”

Quando um leitor replicou que Motta não era “um arquétipo de beleza”, ele respondeu que estava “num plano superior”. “Eu tenho pena de ignorantes como vc… Brasileiros…”, escreveu. “A cultura que eu vivo é a CULTURA superior. Melhor que a maioria ya know?”

E na MTV, a Casa dos Autistas, quadro humorístico, chocou pelo mau gosto.

Todos pediram desculpas depois. Danilo, um dos maiores humoristas de stand-up que já vi, recebeu telefonema do departamento comercial da Band, pedindo para tirar o comentário. Ed Motta se revoltou contra a imprensa. Pergunta se temos o direito de reproduzir seus escritos particulares.

A internet trouxe a incrível rapidez na troca de informações e espaço para exposição de ideias. Alguns se lambuzam. Dizem que são contra as patrulhas do politicamente correto.

Mas como ficam as domésticas ofendidas popr Delfim Netto, os órfãos recentes, aqueles que perderam parentes em Auschwitz, os nordestinos e os pais de autistas?

Tomara que, depois do pensamento grego, democracia, Renascença, a revolução industrial e tecnológica nos iluminem.

O preconceito não é apenas sintoma de ignorância, mas lapsos de um narcisista.

Ele nunca vai acabar?

***

Enquanto no Itaú Cultural, um símbolo de excelência em apoio às artes e alta tecnologia, em plena Avenida Paulista, uma mãe foi expulsa por amamentar o filho em público na exposição do Leonilson, artista que sofreu inúmeros preconceitos, morto vítima da Aids.

Ou melhor, viadão que morreu da peste gay, porque era promíscuo, diriam os reaças.

Os ânimos estão acirrados.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

12 mortos e 190 milhoes feridos




"Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento"

"Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu"

Título copiado do Diario de Pernambuco.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O 'fascismo do bem'

Daqui


Imaginem a seguinte cena: em campanha eleitoral, o deputado Jair Bolsonaro está no estúdio de uma emissora de televisão na cidade de Pelotas. Enquanto espera a vez de entrar no ar, ajeita a gravata de um amigo. Eles não sabem que estão sendo filmados. Bolsonaro diz: "Pelotas é um pólo exportador, não é? Pólo exportador de veados..." E ri.

A cena existiu, mas com outros personagens. O autor da piada boçal foi Lula, e o amigo da gravata torta, Fernando Marroni, ex-prefeito de Pelotas. Agora, imaginem a gritaria dos linchadores "do bem", da patrulha dos "progressistas", da turma dos que recortam a liberdade em nome de outro mundo possível... Mas era Lula!

Então muita gente o defendeu para negar munição à direita. Assim estamos: não importa o que se pensa, o que se diz e o que se faz, mas quem pensa, quem diz e quem faz. Décadas de ditaduras e governos autoritários atrasaram o enraizamento de uma genuína cultura de liberdade e democracia entre nós.

Nosso apego à liberdade e à democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a intolerância. Nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia.

Linchar Bolsonaro é fácil. Ele é um símbolo, uma síntese do mal e do feio. É um Judas para ser malhado. Difícil é, discordando radicalmente de cada palavra dele, defender seu direito de pensar e de dizer as maiores barbaridades.

A patrulha estridente do politicamente correto é opressiva, autoritária, antidemocrática. Em nome da liberdade, da igualdade e da tolerância, recorta a liberdade, afirma a desigualdade e incita a intolerância. Bolsonaro é contra cotas raciais, o projeto de lei da homofobia, a união civil de homossexuais e a adoção de crianças por casais gays.

Ora, sou a favor de tudo isso - e para defender meu direito de ser a favor é que defendo o direito dele de ser contra. Porque se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder.

Se minha reação a Bolsonaro for igual e contrária à dele me torno igual a ele - eu, um intolerante "do bem"; ele, um intolerante "do mal". Dois intolerantes, no fim das contas. Quanto mais intolerante for Bolsonaro, mais tolerante devo ser, porque penso o contrário dele, mas também quero ser o contrário dele.

O mais curioso é que muitos dos líderes do "Cassa e cala Bolsonaro" se insurgiram contra a censura, a falta de liberdade e de democracia durante o regime militar. Nós que sentimos na pele a mão pesada da opressão não deveríamos ser os mais convictamente libertários? Ou processar, cassar, calar em nome do “bem” pode?

Quando Lula apontou os "louros de olhos azuis" como responsáveis pela crise econômica mundial não estava manifestando um preconceito? Sempre que se associam malfeitorias a um grupo a partir de suas características físicas, de cor ou de origem, é claro que se está disseminando preconceito, racismo, xenofobia.

Bolsonaro deve ser criticado tanto quanto qualquer um que pense e diga o contrário dele. Se alguém ou algum grupo sentir-se ofendido, que o processe por injúria, calúnia, difamação. E que peça na justiça indenização por danos morais. Foi o que fizeram contra mim o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas daí a querer cassar o mandato de Bolsonaro vai uma grande distância.

Se a questão for de falta de decoro, sugiro revermos nossa capacidade seletiva de tolerância. Falta de decoro maior é roubar, corromper ou dilapidar o patrimônio público. No entanto, somos um dos povos mais tolerantes com ladrões e corruptos. Preferimos exercitar nossa intolerância contra quem pensa e diz coisas execráveis.

E tudo em nome da liberdade e da democracia...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Entenda por que a CBF reconheceu hoje o título do Flamengo em 1987

Daqui

por Paulo Vinicius Coelho

Que o Flamengo é campeão brasileiro legítimo de 1987, é óbvio. Você sabe minha posição há muito tempo. O Flamengo é o campeão legítimo, porque até Pernambuco acompanhou o Módulo Verde, dado que o Santa Cruz estava na competição. O Sport é o campeão legal porque as finais disputadas com W.O. contra Inter e Flamengo valeram o reconhecimento da CBF. E isso não se tira.

Então, a partir do reconhecimento da CBF ao título do Flamengo, o que aconteceu nesta segunda-feira, há dois campeões na história. O ano de 1987 passa a ser como o de 1968 e tem dois vencedores.
Mas aqui o assunto é: por que a CBF decidiu reconhecer hoje, e justamente nesta segunda-feira, o título brasileiro discutido há 24 anos?

O x da questão é o racha do Clube dos 13 sobre o novo contrato de TV para o Campeonato Brasileiro.
Para que você entenda melhor o tema, divido em capítulos:

xxx

1. Está em questão a renovação do contrato dos direitos de TV do Campeonato Brasileiro e isso ameaça rachar o Clube dos 13. De um lado está o Corinthians e, supostamente, os que votaram em Kléber Leite na eleição do C13 contra Fábio Koff, ano passado -- Botafogo, Coritiba, Goiás, Corinthians, Cruzeiro, Santos, Vasco e Vitória. Como Flamengo e Corinthians sempre pediram que os dois clubes de maior torcida tivessem maior percentual no rateio dos clubes, imagina-se que o Flamengo possa ir para esse lado.

2. Pela primeira vez, o Clube dos 13 divide os direitos de TV em categorias: TV aberta (brigam Globo e Record), TV fechada (SporTV ou ESPN podem ganhar), Internet, Celular. A ideia da comissão de TV, composta por Alexandre Kalil (Atlético-MG), Maurício Assumpção (Botafogo), Luis Álvaro (Santos), é que a decisão se dê com propostas feitas em envelopes fechados. A melhor proposta será a vencedora. A ideia está atrelada ao estudo feito por Ataíde Gil Guerreiro, ex-dirigente do São Paulo e diretor-executivo do Clube dos 13.

3. Ano passado, Ricardo Teixeira tomou duas atitudes rápidas após perder a eleição do Clube dos 13 -- apoiava Kléber Leite, derrotado por Fábio Koff. A primeira foi anunciar, no dia seguinte à derrota, que o Morumbi estava fora da Copa do Mundo de 2014. A segunda foi entregar ao São Paulo a Taça das Bolinhas. Do ponto de vista político, isso significava punir o clube de Juvenal Juvêncio -- principal articulador da candidatura Fábio Koff -- com a perda da Copa e, em seguida, jogar o São Paulo contra o Flamengo.

4. Após aceitar o reconhecimento como primeiro hexacampeão brasileiro, Juvenal Juvêncio afastou-se do Clube dos 13. Em vez de aglutinação entre as forças políticas vencedoras da eleição, o Clube dos 13 viu o afastamento delas. É esse afastamento o que permite, neste momento, o entendimento de Ricardo Teixeira de que pode seduzir Patrícia Amorim a acompanhar Andrés Sanchez num suposto racha do C13. E se manter favorável à Rede Globo. A pergunta é: por que a CBF tem tanto interesse em que a Rede Globo ganhe a concorrência?

5. Ninguém no C13 tem exata noção de que papel Patrícia Amorim exercerá na eleição a partir de agora. Ela pode ser cooptada pelo pequeno presente de Ricardo Teixeira -- ano passado, o Botafogo recebeu empréstimo de R$ 8 milhões e, por isso ou por outra razão, votou em Kléber Leite. O fato é que o empréstimo foi concedido próximo à data da eleição. Casos como esse é que permitem a impressão de que pode estar havendo troca de favores. Mais do que isso, produzem a certeza de que a tentativa da CBF é de trocar favores. Cabe ao Flamengo aceitar o presente, não trocar o favor.

Nesta terça-feira, há uma reunião em São Paulo da comissão de renovação dos direitos de TV do Campeonato Brasileiro. Nela, deve ficar claro qual será a data da abertura do envelope vencedor da disputa por TV aberta.

O Flamengo e o Sport são campeões brasileiros de 1987. Se você é rubro-negro, carioca ou pernambucano, pode comemorar. Mas não deixe de entender o contexto de cada decisão tomada pela CBF. Elas têm um viés diferente do que você imagina.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Candidato honesto não teria motivo para esconder financiador de campanha

Achei bem válida a proposta do Milton Nogueira . Chega desse esconde esconde no Estado.

Políticos deveriam usar na lapela, no primeiro mês de mandato, a logomarca dos financiadores de sua campanha. Se button é lindo no peito de atletas, por que não o seria também nos paletós de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e até mesmo do presidente?

Há décadas o Brasil discute financiamento de campanha eleitoral, sempre em busca de motivos ocultos, suspeitas, revelações tardias, num convoluto trabalho de detetive para saber quem financiou certo candidato. Entre os suspeitos usuais estão construtoras, igrejas, times de futebol, multinacionais, ruralistas, agentes estrangeiros e donos de TVs.

Se o político usasse a logomarca de todas as empresas ou entidades que financiaram sua campanha, saberíamos, desde o primeiro dia do mandato, quem ele representa, sem segredo, sem suspeita, às claras. Muitos políticos teriam satisfação em dizer ao mundo quem eles defendem; por exemplo, evangélicos e ruralistas não escondem sua predileção por projetos que favoreçam seus fiéis clientes ou currais (desculpas!). Eles pensam como os pilotos de Fórmula 1, que orgulhosamente mostram no ombro, peito, testa e braços as empresas que fizeram possível a corrida. Por que não fazer de forma idêntica com políticos?

Uns dirão que não seria ético. Por quê não seria? Aético seria, isto sim, não abrir ao público a ficha que já estaria no site do Tribunal Superior Eleitoral, embora oculto e que ninguém lê. Outros dirão que seria embaraçoso e degradante, mas não seria ainda pior descobrir-se mais tarde que tal político recebera dinheiro sujo de certa empresa?

Político honesto não tem por que omitir o financiador de sua campanha, pois a lei eleitoral permite às empresas e entidades apoiar legalmente os partidos e candidatos preferido. Logomarca deveria estar na lapela, uma forma transparente, aberta e visual para todo político.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Feliz dias internacional da mulher atrasado.

Tô meio que relaxado com o blog, mas vou voltar a ativa. Ainda mais que descobrir que tem gente me seguindo.... hehehehehehehehe. Achei esse texto no blog do

Leila Diniz

O Dia Internacional da Mulher, para mim, é dia de lembrar Leila Diniz. Não aquela mulher desbocada que, nos primeiros tempos da pílula anticoncepcional, lançou-se como uma espécie de cobaia da revolução sexual. Mas a moça da risada escandalosa, talvez ingênua sem ser boba, pronta a ajudar quem dela necessitasse, mesmo que a necessidade não passasse de uma cretinice. Como foi o meu caso.

Fui procurar Leila, numa noite, acho que em 1969 e depois da famosa entrevista do “Pasquim”, em que ela, entre palavrões, fez a apologia da liberdade, inclusive a sexual. Era para uma pauta da revista “Fatos&Fotos”, da qual eu era repórter. Ela estava trabalhando num espetáculo no Teatro Jovem, uma pequena casa de espetáculos em Botafogo, famosa então por lendários shows de choro e samba.

Esperei o espetáculo terminar e me dirigi aos camarins, como quem vai para o cadafalso. Eu tinha 20 anos, nem dois de profissão. Leila, a estrela da TV e do cinema, não passava de 24 anos. Minha missão era convencê-la e me dar uma entrevista que seria a base de uma matéria, cujo título não precisa de explicação para o malparado: “Leila Diniz – receita para apanhar homem”.

O resultado da empreitada está descrito na excelente biografia de Leila, da autoria der um velho amigo e grande jornalista, Joaquim Ferreira dos Santos, publicada pela Companhia das Letras, em 2008. Quando vi o livro numa livraria, nem me passou pela cabeça que o Joaquim pudesse ter recuperado a matéria e publicado um resumo. Mas, ao folhear o índice onomástico, estava lá: Kupfer, José Paulo, 129.

Escreve o Joaquim, hoje titular da coluna “Gente Boa”, no jornal “O Globo”: “A revista Fatos&Fotos publicou uma divertida matéria em que ela [Leila Diniz] e Hugo Bidet [um personagem folclórico da Ipanema dos anos 60, de barriga grande, barbicha e óculos] são fotografados nas cadeiras da calçada do bar [o Veloso, célebre boteco que em 1967 passou a se chamar Garota de Ipanema, pelas razões por todos conhecidas]. Encenam o que seria uma paquera carioca, com o rapaz chegando junto e a moça fingindo que dá mole”(…) Dois amigos, talvez três, com o repórter José Paulo Kupfer que assina a matéria, curtindo com a cara dos tempos”.

Prometi, faz um tempo, escrever ao Joaquim (e fiquei devendo) para contar a origem daquela “curtição”, que, para mim, não foi nada disso. Na parte que me toca, a “receita” da Leila para pegar homem foi, na verdade, motivo de grande aflição.

Tudo começou com uma ordem para que eu fosse entrevistar Carlos Imperial. O diretor da Fatos&Fotos, Claudio Mello e Souza, me informou que ele estava me esperando para que eu o entrevistasse. E me avisou: “Você vai fazer com ele uma receita para pegar mulher”. Não tenho a mínima ideia de quem combinou o que com quem, em relação à matéria. Enfim, achando aquilo meio esquisito fui, de bloquinho em punho, falar com Imperial.

Carlos Imperial, o homem que, no fim das contas, entrou para a história como o apresentador do resultado do desfile das escolas de samba que inventou o bordão “10 nota 10”, era um artista de cinema, rádio e TV. Imperial fazia, no trabalho e na vida cotidiana, um personagem meio cafona, uma espécie de galã-vilão. Gordo, o rosto marcado pelas espinhas pesadas da adolescência, insinuava ser um sedutor irresistível. Fazia o tipo gostosão de periferia.

A receita para pegar mulher era isso mesmo: um manual relâmpago de como “abater a lebre”, no jargão do entrevistado, e levá-la para a cama. Não me lembro de todos os mandamentos, mas os que ficaram na memória são suficientes para assegurar que uma classificação como baixaria seria mais do que adequada para o conjunto da obra. Na minha memória, vejo o Imperial afundado numa poltrona do apartamento, bermuda e chinelão, um sorriso maroto, jeitão fingido de cafajeste, ditando as “regras”.

Uma delas era passar de carro às cinco da tarde, devagar e margeando a calçada da Cinelândia, na ligação do cento do Rio com a zona sul, oferecendo carona às mocinhas paradas nos pontos de ônibus. Uma outra dizia respeito ao quarto em que a “lebre” seria abatida. Uma minuciosa descrição do ambiente, com ênfase detalhada na cama.

Mas se isso já me pareceu o fim do mundo, o pior ainda estava por vir. A matéria provocou algumas reclamações de leitores, broncas de feministas, mas, tudo balanceado, passou como um divertimento – uma cascata jornalística, mas absolutamente transparente. Para encurtar, fez sucesso.

Pior para mim. Fui chamado outra vez pela direção da revista: “Agora você tem de arrumar alguém para dar uma receita de pegar homem”. Fiquei branco e perguntei: “Quem?”. Resposta: “Se vira, não é repórter?”.

Quem? Só mesmo Leila Diniz poderia topar uma coisa assim. Então, lá estava eu, esperando terminar o espetáculo no Teatro Jovem, para tentar falar com ela e propor a matéria. E ainda tinha as fotos, cascata maior ainda, um fingimento de paquera no bar mais famoso de Ipanema.

No tempo em que fiquei esperando, acho que menos de duas horas, que pareceram uma eternidade, cheguei a pensar em ir embora e, no dia seguinte, pedir demissão, deixar de driblar a faculdade e encarar o curso de economia, que, aos trancos e barrancos, eu ia levando. Mas, uma outra voz dentro de mim, que a paixão pelo jornalismo estava tornando mais forte, me convenceu a encarar o constrangimento: “Jornalista não volta para a redação sem a mercadoria”.

Foi assim, com a sensação do condenado à forca, que abordei Leila. Eu devia estar com cara e voz de defunto. Ela ouviu e soltou uma gargalhada: “Rapaz, deixa de ser bobo, isso é simples, fica tranquilo”, disse, começando a tirar a maquiagem. “A gente vai lá pra casa e resolve rapidinho”.

Leila me deu o endereço, mas não me lembro se era em Ipanema ou em Copacabana. Na memória, vem um apartamento pequeno, com poucos móveis, típico dos jovens universitários de classe média que resolviam morar sozinhos. A entrevista começou perto da meia-noite. A ideia era fazê-la rebater os “mandamentos” de Imperial.

Na biografia de Leila, Joaquim Ferreira dos Santos reproduz algumas das respostas que ela me deu, compondo a “receita” para pegar homem:

“De um modo geral, o homem está muito por fora. A mulher deu uma virada e o homem ficou só olhando. Ele aceitou, mas ela que fez o trabalho”;

“Tem ainda uns caras que estão naquela de mexer com a mulher na rua. Essa paquera carioca é engraçada, mas muito bolha”;

“Às vezes ele se assusta com a mulher ousada. O bobalhão do homem precisa se sentir o bonzão. É ele que está conquistando. Precisa se afirmar, achar que ele ganhou o negócio, que passou a saliva e coisa e tal. Mesmo que não seja assim, dá essa colher de chá pro cara. Ele não está acostumado a ser paquerado”;

“A praia e depois a esticada até o bar são os lugares da paquera. Na praia, todo mundo pelado, com a cuca cheia de chope, a coisa fica meio bicho. Depois até o barzinho tem sempre uma andada. Aí você se coloca perto do cidadão. Leva um papo para saber se o cara não é aquele burrão total”.

“Todos os caras que eu quis, eu tive. Mas a coisa parte de uma escolha. Não é sair paquerando. Para a mulher é mais fácil. O difícil mesmo é manter. Toda mulher quer ser amada, quer que o cara fique apaixonado por ela”.

Durante toda a entrevista, mesmo sorrindo e gesticulando, Leila estava séria. Acho que, de repente, encarou aquela ideia idiota como uma oportunidade de produzir mais um panfleto em prol da liberação feminina. Quando, por exemplo, perguntei-lhe sobre a cama – o sofisticadíssimo “abatedouro” do Imperial –, ela fez um jeito de enfado e me disse: “Que cama, cara, que cama? Se tem carinho e tesão, qualquer esteira no chão serve”.

Eram mais ou menos duas da madrugada quando a entrevista terminou. Eu estava aliviado e Leila com sono. Mais do que aliviado, eu estava agradecido. Leila me tratou como a um irmão mais novo, metido em apuros. Foi gentil, carinhosa e, antes de tudo, generosa. Resumindo, cuidou de mim.

Leila morreu, aos 27 anos, num acidente de avião na Índia. Quebrou tabus, escandalizou a sociedade machista, dominante numa época de generalizada repressão, incomodou a ditadura ultraconservadora e a esquerda stalinista. Sua foto de biquíni, com a barriga da gravidez orgulhosamente à mostra, é um divisor de águas no processo de emancipação da mulher brasileira. Como resumiu seu biógrafo, Leila ajudou a dar início a uma revolução dos costumes femininos e a definir um novo papel para a mulher na sociedade brasileira.

Leila é tudo isso, mas, para mim, depois da noite que passei com ela, jamais deixou de ser uma moça sem afetação, doce e alegre, de generosidade genuína – uma característica das professorinhas de jardim de infância de subúrbio, que ela foi antes de se transformar em estrela.